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- Você está aqui para ser interrogado, tem o direito de ficar em silêncio, trazer sua versão para os fatos ou confessar.  

Sobre o banco dos réus, engaiolado, o rato cinza, com feridas nas orelhas e no rabo, mexe os bigodes e encara o juiz.

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- É verdade que o senhor transportava cocaína e maconha no Presídio Boa Esperança? 

O rato permanece em silêncio.

- Que o senhor puxava as drogas pelo rabo, amarradas em uma corda de crochê e seguia de um pavilhão ao outro sem errar o caminho? 

O rato mantém o silêncio.

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- Que o senhor foi domesticado pelos presos? 

O rato tenta bater palmas.  

- E está acima do peso? 

O rato parece sorrir. 

- Usado como mula...

O rato solta um guincho.

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- Excelência, veja bem, mula não, trata-se de um rato, um simples rato de esgoto, órfão, perdido entre as grades, sob a coação de pés desalmados, corrompido por torrões de açúcar e prestes a sofrer diabetes, insiste o Defensor.

- Reformulo. Usado como avião. 

O rato suspira, aliviado.

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- Senhor rato, pode fazer uso da delação premiada.

O rato fecha os olhos. 

- Nomes, senhor rato. E reduzirei sua pena.

O rato abaixa as orelhas.  

- Excelência, trata-se de um rato, um simples rato de presídio, que já cumpriu sua pena vivendo naquele lugar...  E olhando para o rato, o advogado suplica, no sussurro cuspido: fale rato, qualquer João, José ou Mané.

O rato continua com as orelhas arriadas (rato era, mula não, muito menos dedo-duro). 

O juiz aguarda o ponteiro dos segundos fazer volta e meia na parede amarelada da sala de audiências. Só então olha o rato, as orelhas murchas do rato, o rabo machucado do rato, a barriga inchada do rato. Deposita os óculos sobre o Código Penal e grita:

-Cabo Everaldo? 

-Sim, excelência. 

-Abra a gaiola do rato.

-Sim, excelência! 

-Mas, antes, traga o gato.

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