martinscardoso

QUarenta semanas

 

Você escorrega o dedo indicador sobre a barriga, desenha círculos na pele esticada onde antes era o umbigo. Repousa a mão na lateral e dá três batidas. Repete e a criança responde. Você respira aliviada. Talvez estivesse dormindo, pois agora empurra suas costelas com um dos pés, parecendo espreguiçar. Já se foram trinta e cinco semanas. Você não consegue mais trabalhar, o médico prescreveu repouso após o almoço e sempre se deitar sobre o lado esquerdo do corpo durante a noite. No início o ventre explodiu em crescimento, sendo visível a gravidez nos primeiros meses, mas agora a barriga está dois centímetros menor que o padrão e o doutor insiste em cuidados extras.

Você se olha no espelho, a essa altura imaginou-se uma anta, com aquele andar vagaroso, pernas inchadas, braços roliços, seios de matriarca e rosto absolutamente redondo. Mas tudo valeria a pena, afinal, era a sua independência financeira. O celular toca, são eles, ou melhor, Ava na vigília. Precisa de algo, está repousando, tudo certo com Martina? É o que irá perguntar. A chamada cai, você conta um, dois, três, e o telefone recomeça. Não, não irá atender, pois está em repouso, é o que vai dizer quando, enfim, for vencida pela insistência. Descanso, descanso, afinal, não é isso que você quer, Ava? Volta-se para o espelho, as estrias não vieram, a pele, um marrom adocicado que reluz, os braços continuam finos e definidos, as pernas não incharam, os seios ganharam um volume extra bem interessante e o rosto continua igual. 

Você novamente tamborila os dedos na barriga, Lis, vamos tomar banho? Não existiram dúvidas no início. Ava queria muito e fez contato através do aplicativo. Houve, na implantação, alguns sintomas de rejeição, um enjôo insuperável nas primeiras semanas, que cedeu espaço para uma angustiante azia, até que, ultrapassados os três meses, o corpo respondeu, sincero e aliviado com a permanência da visitante. O pai sugeriu que deixassem para descobrir o sexo no momento do parto, mas Ava protestou: para que servia o avanço da medicina se dele não queriam usufruir? E com o sexo descoberto, batizaram-na Martina. 

O bebê reclama quando Ava encosta o rosto na barriga e chama Martina, Tina, Tina. Mas não quando você a chama de Lis. Você sabe mais que eles, mas falta-lhe coragem. Já se foram oito meses de insistente convivência. Nada que disser fará qualquer diferença e para eles o que importa é se alimentar bem, repousar, manter-se equilibrada com yoga e meditação que insistiram em pagar, aliás, como quase tudo e o dinheiro que antes surgiu com cheiro e gosto de liberdade hoje não te deixa ver o Sol. O mesmo Sol que agora invade a sua cama apenas para ingênuo consolo.

Você sente que seus quadris já se ajeitaram, que Lis está na posição correta e que a cada dia te espreme mais, forçando passagem, enquanto Ava já se decidiu pela cesárea. Você sabe que o momento se aproxima, e porque Lis responde quando você a chama, e gosta da sua voz, e gosta de ser Lis, e precisará sentir seu cheiro, precisará provar seu leite e isso já vem sendo discutido com o médico, a amamentação nos primeiros dias, ao menos nos primeiros dias. Mas Ava já comprou uma espécie de sugador, e umas garrafinhas para o freezer. E vai pedir à enfermeira para lhe ensinar a ordenha.

Você precisa dizer que ficará com Lis. Nas primeiras horas, nos primeiros dias, nos primeiros meses, talvez. Ela repousará no seu colo, ouvirá sua voz, provará o colostro, será chamada pelo nome correto. Depois, você fará sua parte, irá cumprir o combinado, até porque já recebeu metade do dinheiro e não terá como devolver. Mas algum direito há de existir, o direito de resguardar o primeiro momento e a esperança de, enfim, nela ou através dela, você se descobrir.

Danielle Martins Cardoso